segunda-feira, 1 de novembro de 2010

31 de outubro não é dia de halloween!!!




O mundo da Reforma era bastante agitado e muito parecido com o nosso mundo de hoje. As transformações aconteciam rapidamente. As pessoas dormiam achando que o mundo era quadrado e acordavam com a notícia de que o mundo era redondo. Elas acordavam achando que o sol girava em torno da terra e iam para a cama depois de ouvir que era a terra que girava em torno do sol. Elas imaginavam que viveriam a vida inteira trabalhando nos campos dos feudos e, de repente, viam-se trabalhando nas feiras das cidades. Quase que ininterruptamente, as pessoas começaram a ser bombardeadas pelas notícias das mudanças, que não mais vinham na velocidade galopante do cavalo, mas sim na velocidade estonteante das caravelas, como as de Cristovão Colombo e Pedro Álvares Cabral.

As tantas mudanças no mundo e na forma de interagir com o mundo deixaram as pessoas cambaleantes. De repente, elas já não mais sabiam o que era certo e o que era errado, o que era verdadeiro e o que era falso, o que era eterno e o que era temporário. Aquelas instituições que, durante tantos anos, traziam segurança e idéia de estabilidade, estavam em xeque. O ar da Europa do século XVI parecia carregado de mal-estar e de angústia. Havia um frio na barriga, uma sensação de vazio, um buraco no coração e na alma das pessoas. A vida com a qual estavam acostumadas, os princípios que usavam para sustentar as suas decisões, os nortes que pareciam tão seguros para apontar as direções corretas, tudo começou a desaparecer diante dos olhos das pessoas. A vila onde moravam, o bairro onde viviam, a região onde habitavam, o mundo que elas conheciam estava se tornando um lugar diferente; e pior, ninguém havia sido adequadamente preparado para enfrentar e lidar com essas tantas mudanças em tão pouco tempo.

Até mesmo a religião, que, como instituição, durante tanto tempo, havia se arvorado do poder de preencher o vazio do coração das pessoas, foi questionada. Algumas pessoas, de dentro da própria igreja, perceberam os abusos e as estranhezas (compra de bênçãos e barganhas com Deus) praticadas em nome de Deus. E em nome de Deus, cheias do temor divino no coração, essas mesmas pessoas começaram a pregar, a escrever e a criticar as esquisitices e explorações que percebiam na igreja. (No meio das tantas mudanças no mundo, essas pessoas ansiavam por uma mudança no coração, no seio da igreja e na sociedade.) Algumas dessas pessoas, como John Huss da região da Boêmia, foram chamadas de hereges e queimadas vivas. Outras viveram e morreram, mas tiveram, posteriormente, os seus ossos desenterrados e queimados, como Wycliff da Inglaterra.

No meio dessas mudanças no mundo e dessas guerras dentro da igreja, um homem, como tantos outros, angustiado e cheio de perguntas, procurava um porto seguro para a sua alma. O seu nome era Martinho Lutero. Ele havia tentado encontrar a sua paz e as suas respostas em diversos lugares. Primeiramente, ele se dedicou ao estudo do Direito e, depois de formar-se advogado, descobriu que não tinha encontrado as respostas que procurava. Então ele abandonou tudo, o Direito e a posição social, e se enclausurou em um Mosteiro Agostiniano. Anos depois, a sua alma continuava vazia e desesperada. A religião, com todos os seus esquemas e rituais, também não havia conseguido aquietar o desespero da sua alma. Nem mesmo as penitências, os muitos jejuns, orações e peregrinações conseguiram trazer-lhe a segurança que buscava e a paz que desejava.

No meio desse clima de mudanças constantes e de inseguranças extremas, de desespero e de incerteza de alma, Lutero, depois de anos na religião, leu a Bíblia pela primeira vez e teve o seu primeiro encontro com a Palavra de Deus! Aquilo que as instituições, as pessoas, os estudos, a religião e as penitências não haviam conseguido fazer, a Palavra de Deus fez! Pela primeira vez na vida, depois de tantos anos de busca, Lutero experimentou a doçura de Deus no seu coração. Ele reconheceu que Deus é gracioso e que Jesus é o Único que pode trazer a paz de Deus ao nosso coração. Ele descobriu que a sua confiança precisava ser depositada totalmente em Jesus e em nada mais. Não era o mundo e nem as pessoas, a religião e nem as instituições, a justiça do homem e nem os esforços humanos; mas somente Jesus é quem pode trazer segurança ao nosso pequeno barco existencial no meio do mar agitado da vida.

Lutero se tornou um ávido leitor das Escrituras! Ele não somente se dedicou a ler a Bíblia, mas sobretudo a estudar a Bíblia. Cada livro, cada texto, cada palavra, tudo na Palavra de Deus trazia doçura e paz ao coração de Martinho Lutero. O seu alvo não era conhecer apologeticamente as Escrituras, mas conhecer a Cristo e relacionar-se com o seu Salvador e Senhor. Ele não lia a Bíblia para preparar sermões ou para apresentar alguma defesa do Evangelho, mas para conhecer a Jesus e o poder da ressurreição.

O seu amor por Deus tornou-se intenso amor pelas pessoas. A sua entrega a Deus tornou-se entrega às pessoas da comunidade onde ele vivia. Por isso, ele começou a pregar, não mais os livros escritos pelos homens e nem as propostas apresentadas pela instituição chamada igreja, mas sim a Palavra de Deus. Quase diariamente, ele subia ao púlpito da igreja da sua cidade Wittemberg, Alemanha, para proclamar as verdades das Escrituras. Ele ansiava por compartilhar com os outros a Verdade que o havia libertado do medo e da ansiedade, das prisões e das cadeias, das mentiras e acusações das trevas, do pecado e da condenação.

Foi nesse contexto de encontro com Deus e de paz em Jesus, de amor ao Senhor e de entrega às pessoas, que Martinho Lutero foi usado pelo Senhor para iniciar um movimento de Reforma na Alemanha. Quando no dia 31 de outubro de 1517 ele pregou as suas 95 teses contra a cobrança das indulgências nas portas da Catedral de Wittemberg, o seu único desejo era o de compartilhar a Verdade que havia mudado a sua história e havia sido âncora para a sua alma. Ele queria tão somente mostrar para as pessoas que, no meio das tantas mudanças no mundo ao redor, existe Alguém que permanece amando e chamando as pessoas para ancorar-se Nele, que é fiel e não é levado pelas correntes do mundo ou pelas mudanças dos tempos.

Deus não nos ama mais ou ama menos segundo o tamanho da nossa contribuição para a igreja; Ele não nos ama mais ou ama menos segundo o tamanho dos nossos sacrifícios em nome dele; Ele não nos ama mais ou ama menos segundo a proporção do nosso envolvimento em algum trabalho social. Deus simplesmente nos ama com um amor que não muda e nem oscila ao sabor das mudanças que acontecem em nós e à nossa volta. A cruz do calvário é a maior prova desse amor eterno de Deus para conosco. Deus já provou o quanto nos ama! Jesus já se entregou e morreu por amor a nós na cruz do Calvário (Romanos 5.8)! O amor de Deus por nós é conseqüência direta do amor que Deus tem por Jesus Cristo. Somos amados por Deus por meio de Jesus Cristo que nos amou e se entregou por nós! Essa é a transformadora mensagem da Bíblia; essa é a doce mensagem do Evangelho.

Essa foi a mensagem que Lutero descobriu e continuou redescobrindo enquanto meditava diariamente nas Escrituras. Essa foi a mensagem que o impulsionou a escrever as suas 95 teses contra as indulgências. O amor de Deus derramado em seu coração e experienciado a partir da sua leitura e meditação das Escrituras foi a âncora que o sustentou quando foi pressionado a negar o que Deus lhe havia falado. Diante dos ventos fortes que batiam contra ele e das autoridades que ordenavam que ele se retratasse, Lutero proclamou: “Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão – porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos – pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável. Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude!”

E o Senhor Deus ajudou Martinho Lutero. Tentaram amedrontá-lo, excluí-lo, prendê-lo e matá-lo; jogaram pessoas e reinos contra ele, exércitos e instituições, acusações e maldições, mas o Senhor Deus o protegeu e o livrou de tudo e de todos. Lutero descansou no Senhor com a idade de 62 anos, vindo a falecer no dia 18 de fevereiro de 1546. E a sua descoberta da Bíblia e da pessoa de Jesus não ficaram guardadas só para ele. Ele deixou um legado. Não foi somente ele que experimentou a doçura de Jesus e a segurança em Jesus nos dias turbulentos de sua época, mas outras pessoas também puderam conhecer e se encontrar com Jesus a partir das Escrituras que foram traduzidas para a língua do povo e colocada nas mãos das pessoas. Se até então os alemães não podiam ler a Bíblia, depois de Lutero, que traduziu a Bíblia para o alemão, as pessoas começaram a ter acesso à Palavra de Deus, que tem poder para libertar e ancorar a alma em Porto Seguro. A volta à Bíblia e o amor pela Palavra de Deus iniciaram e levaram o acontecimento da Reforma, do amor e doçura de Jesus,  para a Alemanha, Europa e o mundo!

Se olharmos para o nosso contexto atual, vamos perceber que vivemos dias parecidos com os dias da Reforma. Parece que o nosso mundo está dia após dia se dissolvendo debaixo dos nossos pés. As coisas têm se relativizado, as instituições começam a ser questionadas, o mundo parece estar vivendo uma era de transformação e de instabilidade. Temos medos, inseguranças e ansiedades. Todos esses sentimentos e sensações são como cheiros e aromas percebidos no ar de nossas cidades e nações. Nós e todos à nossa volta estão à procura de um Porto Seguro. Não existe outro lugar para onde voltarmos, senão para a Palavra de Deus. Não existe resposta ou segurança, senão em Jesus Cristo, o Verbo que se fez Carne, o Emanuel, o Deus conosco, o Deus que ama e nos chama para um relacionamento com Ele.

Que o Senhor nos ajude!

Gustavo Bessa.http://blogdaana.wordpress.com

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