quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A falácia do ódio pessoal


Por Valmir Nascimento Milomen

A ideia do amor próprio, tal qual é apregoada hoje em dia, já nasce com uma enorme inconsistência. Os seus defensores partem da premissa de que o homem, naturalmente, odeia a si mesmo. Pressupõem que o ser humano só não é bem sucedido porque possui em seu intimo um ressentimento; uma briga pessoal interna. Seus objetivos de vida, portanto, não são atingidos em virtude dessa constante auto-depreciação.

A auto-estima, escreve Lair Ribeiro, “é fundamental na conquista do sucesso. Se você não gosta de si mesmo, como vai convencer os outros a gostar? Não adianta se cobrir de ouro, usar roupas finas, se a sua auto-estima estiver baixa. O problema é que o modo como fomos criados nos leva a não gostar de nós mesmos. Nossa estrutura nos torna autocríticos demais”.

Isso é pura falácia. Mentira com aparência de verdade.

O homem não nasce com ódio de si mesmo, muito ao contrário, somos gerados com o sentimento de afeição e estima natural, afinal, isso é inerente ao ser humano. O apóstolo Paulo, na epístola aos Efésios, disse:

“Da mesma forma, os maridos devem amar cada uma a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a Igreja (Ef. 5.28,29, NVI).

Nessa passagem, o apóstolo dos gentios deixa evidente que o homem não odeia a si mesmo. Ele parte da constatação de que amamos o nosso próprio corpo, e por isso o alimentamos e dele cuidamos constantemente.

A naturalidade do amor próprio, aliás, foi abordado por Jesus. Ele disse: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39).

Esse é um texto que vez ou outra é interpretado de modo equivocado a fim de fundamentar a supervalorização do ego, com o raciocínio de que o homem precisa buscar o amor próprio, pois, foi Cristo quem o disse. Ocorre que o foco dessa mensagem não é a busca da auto-estima, mas sim o amor ao próximo, erigido como o segundo grande mandamento, sendo o primeiro “amar a Deus sobre todas as coisas”.

Existe uma enorme diferença entre “amar a si mesmo” e “amar ao próximo como a ti mesmo”. Não é possível confundi-las. Na primeira hipótese temos o próprio indivíduo como objeto do amor, já na segunda, o objeto é o próximo. A divergência reside no fato de que na admoestação de Cristo o amor (agapaõ) do homem por si mesmo é considerado como parte da sua natureza, cuja busca se faz desnecessária, onde o mesmo é suscitado basicamente para funcionar como a medida de afeição que deve ser empregado em relação àqueles que nos cercam.

Dave Hunt explica claramente esse assunto:

Lingüisticamente, em toda a Bíblia, o termo agapao é sempre dirigido aos outros, nunca a mim mesmo. O conceito de amor-próprio não é o tema do Grande Mandamento, mas apenas um qualificativo. Quando Jesus ordena amar a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12.30), Ele enfatiza a natureza abrangente desse amor agapao(amor-atitude, que vai além da capacidade do homem natural, sendo possível exclusivamente pela graça divina). Se Ele usasse as mesmas palavras para o amor ao próximo, estaria encorajando-nos à idolatria. Contudo, para o grau de intensidade de amor que devemos ao próximo, Ele usou as palavras “como a ti mesmo”.

Jesus não nos ordenou a amar a nós mesmos. Ele não disse que havia três mandamentos (amar a Deus, ao próximo e a nós mesmos). Ele apenas afirmou: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40). O amor-próprio já está implícito aqui – ele é um fato – não uma ordem. Nenhum ensino nas Escrituras diz que alguém já não ama a si mesmo. Paulo afirma: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja” (Ef 5.29). Os cristãos não são admoestados a amar ou a odiar a si mesmos. Amor-próprio, ódio-próprio (que é simplesmente uma outra forma de amor-próprio ou preocupação consigo mesmo), e auto-depreciação (possivelmente uma desculpa para culpar a Deus por não conceder ao ego maiores vantagens pessoais), são atitudes centradas no eu. Os que se queixam da falta de amor-próprio geralmente estão insatisfeitos com seus sentimentos, habilidades, circunstâncias, etc. Se realmente odiassem a si mesmos, eles estariam alegres por serem miseráveis. Todo ser humano ama a si mesmo.

Em toda a Escritura, e particularmente dentro do contexto de Mateus 22, a ordem é dirigir aos outros todo o amor que o indivíduo tem por si. Não nos é ordenado que amemos a nós mesmos. Já o fazemos naturalmente. O mandamento é que amemos os outros como já amamos a nós mesmos. A história do Bom Samaritano, que segue o mandamento de amar o próximo, não só ilustra quem é o próximo, mas qual é o significado da palavra amor. Nesse contexto, amor significa ir além das conveniências a fim de realizar aquilo que se julga ser melhor para o próximo. A idéia é que devemos procurar o bem dos outros do mesmo modo como procuramos o bem (ou aquilo que podemos até erradamente pensar que seja o melhor) para nós mesmos – exatamente com a mesma naturalidade com que tendemos a cuidar de nosso bem-estar.

Portanto, independente da compreensão que se tenha dessa passagem bíblica, a verdade insconstestável é que o homem ama a si mesmo, do contrário Cristo teria dito: “Não odieis o próximo como a ti mesmo”.

Ao abordar essa temática, Dave Hunt diz que esse fundamento (o homem odeia a si mesmo) é, em sua essência, inverídico. Segundo ele, é óbvio que há um grande número de pessoas que expressam graus variados de auto-depreciação. Porém, é fácil perceber que na realidade tais pessoas não odeiam a si mesmas. Aqueles que dizem: “Eu sou tão feia que eu me odeio!”, não se odeiam de verdade; caso contrário eles mesmos estariam contentes por serem feios (Afinal eles não se odeiam?). É exatamente porque amam a si mesmos que ficam perturbados com suas aparências e com a maneira pela qual as demais pessoas reagem a eles.

Hunt diz ainda que a pessoa que geme em meio à depressão e diz que se odeia por ter desperdiçado sua vida estaria de fato feliz por ter desperdiçado a sua vida, caso se odiasse de verdade. O fato é que a razão a de estar infeliz por ter desperdiçado a sua vida é seu amor a si mesma. O criminoso aparentemente carregado de remorso, que diz odiar-se pelos crimes que cometeu, deveria então estar feliz pelo próprio sofrimento na prisão. No entanto, espera escapar a esse destino, o que prova que ele se ama. Assim acontece com a pessoa que tira a própria vida. A maior parte dessas pessoas considera o suicídio uma fuga; mas quem ajuda alguém a quem odeia, a fugir? O suicídio é o ultimo ato do ego tentando escapar às circunstâncias sem consideração alguma por qualquer outra pessoa”.

A pessoa, portanto, que se deprecia constantemente, não se odeia de fato, tampouco tem uma auto-imagem inferior; ao reverso, ela está simplesmente informando aos demais que seu desempenho não está em conformidade com os padrões que ela mesma estabeleceu para si. Isso, evidentemente, não é um sintoma de auto-estima deficiente, no sentido reverso, é o outro lado da moeda do orgulho.

A.W. Tozer explica que a auto-depreciação é ruim pelo simples fato de que o ego está ali para ser depreciado. O ego, quer se exalte, quer se deprecie, não pode ser qualquer outra coisa senão detestável para Deus. A vanglória é então a prova de estarmos satisfeitos com nosso ego; a auto-depreciação, ao contrário, é a prova de que estamos desapontados com ele. Em qualquer um das formas revelamos que temos uma opinião muito positiva a nosso próprio respeito.

A auto-depreciação é, em outras palavras, o grito de lamúria do homem, que se ama na sua essência (lembremos das palavras de Paulo), e que não conseguiu atingir o ápice de seus desejos, projetos ou sonhos. Caso o homem realmente não se amasse, a humanidade estaria completamente dizimada; assassinadas pelos seus próprios “eus”.


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 Púlpito Cristão

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